Reabertura do Centro de Convivência é marco cultural para Campinas

Por José Pedro S.Martins

O planeta passou por uma pandemia em dimensão inédita, o Brasil assistiu a um impeachment presidencial, Campinas tinha saído de um grande imbroglio na política. O mundo, o país, a cidade mudaram muito nos 14 anos em o teatro do Centro de Convivência Cultural ficou fechado. Projeto de autoria do premiado arquiteto campineiro Fábio Penteado, o complexo foi reaberto na manhã desta quinta-feira, dia 10 de julho, em evento para imprensa e convidados, marcando os 251 anos da cidade que tem um trauma histórico com a demolição de dois importantes teatros no século 20.

A programação de reabertura continua com concerto da Orquestra Sinfônica Municipal no sábado, 12 de julho, no Teatro de Arena Teresa Aguiar. “Não estamos falando apenas de um teatro. A área é um complexo cultural, com espaço para exposições, teatro e outras apresentações artísticas. É uma infraestrutura moderna e de qualidade”, comentou o prefeito Dário Saadi no evento de reabertura, no palco do Teatro. Emocionado, o prefeito descerrou a placa comemorativo da reabertura, após a sequência de pronunciamentos das autoridades presentes.

Pianista Amelie Uchoa recebeu e encantou os convidados (Foto José Pedro S.Martins)

A reabertura do Centro de Convivência para o público é um marco cultural para Campinas, cidade que convive há um século a ferida aberta pela demolição do Teatro São Carlos, em 1922, e depois do Teatro Municipal Carlos Gomes, em 1965. Em 1970, foi inaugurado o Teatro Castro Mendes, adaptado da estrutura do antigo Cine Casablanca, na Vila Industrial.

Mas Campinas ansiava por um novo teatro, em sintonia com sua vocação cosmopolita e ele viria em 1976, com a inauguração do teatro do Centro de Convivência Cultural, conforme projeto assinado pelo arquiteto campineiro Flávio Moura Penteado. Nascido em 1929 em Campinas, aos seis anos Penteado foi com a família para São Paulo, residir no aristocrático bairro de Higienópolis. Mas as raízes campineiras permaneceram e ele, já reconhecido em termos nacionais e internacionais, formulou o projeto do Centro de Convivência Cultural, em um momento em que Campinas ainda se ressentia do golpe da demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes em 1965.

O projeto de Fábio Penteado ganhou a Medalha de Ouro da I Quadrienal Internacional de Teatro de Praga, na então Tchecoslováquia, em 1967. Logo veio o contrato com a Prefeitura de Campinas para a implantação do projeto no local onde entre os séculos 19 e 20 existia o Passeio Público, inspirado em espaço semelhante no Rio de Janeiro. Depois, uma escola pública funcionou no local.

“Um espaço aberto para o encontro e o convívio, onde se pode ficar à vontade, vadiar, ler, descansar, namorar, assistir a espetáculos artísticos ou esportivos, participar de manifestações públicas…”, afirmou Penteado sobre o conceito de seu projeto, como descreveu no livro “Fábio Penteado: Ensaios de arquitetura” (São Paulo: Empresa das Artes, 1998, p.100). Na prática, essa visão foi materializada no Teatro de Arena. O complexo incluiria também um teatro interno, para 500 lugares, e espaço para exposições de diferentes linguagens artísticas.

Desde a sua inauguração, o Centro de Convivência Cultural se transformou de fato no principal território das artes na cidade, tendo recebido artistas locais, nacionais e internacionais de múltiplas vertentes e estilos. Mas o complexo passou a sofrer com problemas estruturais e acabou fechado. Em 2011, ano de falecimento de Fábio Penteado, foram fechados os espaços internos. Depois foi fechado o teatro de arena.

Apresentação inédita da Companhia LightWire, com imagens estilizadas de ícones de Campinas (Fotos acima e do destaque: Firmino Piton/PMC)

A recuperação do Centro de Convivência – O processo de recuperação do Centro de Convivência Cultural começou no governo de Jonas Donizette. Um estudo realizado pela empresa Falcão Bauer, com recursos de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com a Prefeitura, contemplou diversos testes para avaliação da solidez da estrutura do complexo. O estudo concluiu que era possível a recuperação, mas o que exigiria expressivos investimentos. Contrariando diversas vozes, umas que defendiam a demolição também do Centro de Convivência, e outras que apoiavam a construção de um novo teatro, Jonas decidiu por investir na sua recuperação. “O homem público tem que fazer escolhas e eu fiz a escolha pela recuperação do Centro de Convivência, um patrimônio de Campinas”, disse hoje de manhã o ex-prefeito Jonas Donizette, hoje deputado federal, no evento de reabertura.

Com recursos do governo estadual, acertados ainda no governo de Geraldo Alckmin, a primeira etapa das obras teve início em 2020, em pleno ano da pandemia de Covid-19. As obras prosseguiram no governo de Dário Saadi, entre 2021 e início de 2025. O investimento total é estimado em mais de R$ 60 milhões, abrangendo intervenções nas áreas hidráulica, elétrica, modernização dos sistemas de áudio e vídeo e completa impermeabilização no Teatro de Arena, para evitar as infiltrações, uma das fontes dos problemas estruturais que levaram ao fechamento do complexo.

Companhia Atena fez a coreografia de clássicos musicais

Agora, com a reabertura, o Centro de Convivência Cultural está vocacionado a ser novamente um espaço para as mais diferentes manifestações artísticas e culturais, refletindo os complexos dramas e desafios da sociedade contemporânea, o que deixou de fazer durante mais uma década, período em que a cidade, o Brasil e o planeta passaram por muitas transformações.

O indicativo de que o Centro de Convivência Cultural, de muita memória, também está pensando no futuro, foi a presente no evento de hoje de manhã da pianista Amelie Uchoa, de oito anos. Ela recepcionava e encantava os convidados, no saguão de entrada do teatro interno do Convivência, com um repertório variado. O evento também contou com a apresentação das companhias Atena e LightWire.

Os pronunciamentos das autoridades que subiram ao palco do Teatro Luis Otávio Burnier foram todos marcadas por emoção, em especial da secretária municipal de Cultura, Alexandra Caprioli. “Vida longa à cultura de Campinas”, disse a secretária. Por sua vez, o secretário municipal de Infraestrutura, Carlos José Barreiro, detalhou o processo de recuperação e modernização do complexo, incluindo a fundamental impermeabilização do Teatro de Arena.

O prefeito Dário Saadi lembrou que, ainda fazendo o cursinho em Ribeirão Preto, viu um cartaz que o chamou a atenção. Era da peça “Navio Negreiro”, de Vado, que estava em cartaz na época no Centro de Convivência Cultural de Campinas. A peça já foi encenada mais de 12 mil vezes, o que garantiu a Vado o recorde no Guinness Book (Livro dos Recordes), por carreira mais longa como produtor teatral pela mesma produção. Vado estava no evento hoje de manhã e Dário relembrou o episódio como um sinal do poder da cultura, acrescentando que tinha orgulho de estar reabrindo o Centro de Convivência em sua gestão.

Alguns dos fatos capitais em 14 anos de Centro de Convivência fechado: impeachment da presidente Dilma Rousseff, pandemia de Covid-19, início e conclusão das obras do BRT, morte de Jô Soares e várias personalidades da cultura

O mundo mudou em 14 anos – Desde a interdição do espaço do Teatro de Arena ao público, em 2011, o mundo passou por enormes mudanças, que também aconteceram em ritmo alucinante em Campinas. O fechamento do Convivência ocorreu logo na sequência de uma grave crise política na cidade. Em maio de 2011, a cidade foi sacudida por um terremoto político, que levou ao impeachment do prefeito Hélio de Oliveira Santos em 20 de agosto. O vice-prefeito que assumiu a Prefeitura, Demétrio Vilagra, também foi afastado em definitivo no dia 21 de dezembro. Assumiu então a Prefeitura o então presidente da Câmara Municipal, Pedro Serafim.

Entre 2015 e 2016, foi a vez do Brasil todo passar pela turbulência política que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. O processo se estendeu por 273 dias e o impeachment foi aprovado a 31 de agosto de 2016. Assumiu o vice-presidente, Michel Temer, depois sucedido por Jair Bolsonaro, em um governo marcado por muitas controvérsias.

Em 2020, o mundo passou a vivenciar a grande tragédia sanitária da pandemia de Covid-19. Uma catástrofe que provocou milhões de mortes e levou a muitas transformações no cenário socioeconômico e político mundial. O desenvolvimento de vacinas em tempo recorde contribuiu para que a barbárie total não fosse instalada no planeta.

Desde 2013, o Brasil e o mundo perderam muitas personalidades, das artes, da política, da ciência. O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, os cantores e músicos Lou Reed, Dominguinhos e Emílio Santiago, os atores Walmor Chagas e James Gandolfini (2013); o poeta Manoel de Barros, os empresários Antônio Ermírio de Moraes e Norberto Odebrecht, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, os atores Hugo Carvana, Paulo Goulart e Robin Willians (2014); os escritores Rubem Alves, Gabriel Garcia Marquez e Nicolau Sevcenko (2014); os atores Antônio Abujamra, Marilia Pera, Betty Lago, Yoná Magalhães, Maria Della Costa, Claudio Marzo, Miele, os músicos B.B.King, José Rico, a artista plástica Tomie Ohtake, o empresário Olacyr de Moraes, o escritor Eduardo Galeano (2015); o líder cubano Fidel Castro, os cantores e músicos Cauby Peixoto, Naná Vasconcelos, David Bowie, George Michael, Billy Paul, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, o boxeador Muhammad Ali, os atores Elke Maravilha, os escritores Umberto Eco, Ferreira Gullar, o cardeal D.Paulo Evaristo Arns, os diretores de cinema Hector Babenco, Ettore Scola (2016), os cantores e músicos Belchior e Chuck Berry, os atores Paulo Silvino e Rogéria, o artista plástico Franz Krajceberg (2017), e mais recentemente o comediante Jô Soares (2022), o Rei Pelé (2022), a cantora Gal Costa (2022), Rita Lee (2023), Glória Maria (2023) e o apresentador Silvio Santos (2024) são algumas das personalidades que faleceram no período. Muitos artistas desta lista se apresentaram no teatro do Centro de Convivência Cultural.

Demolição de teatros é trauma centenário em Campinas – Em 1922, ano da lendária Semana de Arte Moderna em São Paulo, marco do modernismo artístico brasileiro, Campinas vivenciava, pelo contrário, um grande trauma em seu universo cultural, com a demolição do Teatro São Carlos. Desde 1850, ele era o epicentro da vida cultural campineira, com apresentações de artistas nacionais e internacionais como Sarah Bernhardt, em 1886. Riscos em sua estrutura levaram à decisão por sua demolição.

Teatro São Carlos, no centro de Campinas, foi demolido em 1922

Em 1965, o sucessor do Teatro São Carlos, o Teatro Municipal Carlos Gomes, construído no lugar do anterior e inaugurado em 1930, também foi demolido. Novamente, a motivação para a demolição foram alegados riscos estruturais. Campinas ficaria muito tempo sem um teatro, até a inauguração do Teatro Castro Mendes, em 1970. Duas demolições de teatros e a cidade escapou de ter um terceiro. Agora, o Centro de Convivência Cultural projeta o futuro aliado à sua rica trajetória.

Demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes em 1965: uma história para se lembrar e reforçar a importância da reabertura do Centro de Convivência Cultural (Foto Acervo Centro de Memória da Unicamp)

1 comentário

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Silvana Nader

Que prazer ler uma matéria tão completa , tão esclarecedora . Que texto delicioso!
Tenho certeza que o OiCambuilCampinas prestará um serviço inestimável à cidade. Vida longa !

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