Zaiman de Brito, o contador de histórias da cidade

“Campinas, meu amor”, lançado em 2007, é o meu livro 50, este escrito em parceria com o radialista e apresentador de televisão Helton Pimenta. O livro é uma homenagem a Zaiman de Brito, jornalista de enorme prestígio em Campinas, que ocupou vários cargos, como o de editor do jornal “Diário do Povo”. Há muitos anos, Zaiman é morador no Cambuí, bairro que ele adora e percorre diariamente.

Durante alguns anos Helton Pimenta, em seu programa de rádio na CBN Campinas e depois na TV, entrevistava Zaiman sobre aspectos da história cotidiana de Campinas. São esses “causos” contados por Zaiman que se transformaram no “Campinas, meu amor”, que teve lançamento na Câmara Municipal de Campinas e em outros locais.

Um amor imenso, pelas ruas e sua literatura, pelas praças e sua poesia, pelo povo e sua vibração, pela Ponte Preta, a maior paixão. Não é outro o sentimento de Zaiman de Brito em relação a Campinas, desde que chegou na cidade, com a mãe, já viúva, a querida Dona Zaíra, e dois irmãos. O fluminense de Macaé se tornou campineiro até os ossos, e um de seus maiores cronistas, com histórias contadas em jornal, rádio, televisão e, agora, internet.

Muitas dessas histórias estão contadas em “Campinas, meu amor – A cidade pelos olhos de Zaiman de Brito Franco”, livro escrito em parceria minha com Helton Pimenta. Foi um desafio enorme manter o frescor, tentar reproduzir a magia com que Zaiman faz os seus relatos sobre os bons tempos do restaurante Armorial, do bar Ideal, da boate em frente à Igreja do Carmo.

Histórias povoadas de gente, de gente de verdade, com suas dores, alegrias e esperanças. A renda do livro foi destinada ao Centro Boldrini e ao Centro Corsini, dois exemplos da vocação solidária de Campinas. Abaixo, algumas histórias, pequena amostra do que Zaiman contou e, principalmente, viveu:

O editor pianista – Uma das figuras mais incríveis da boate El Cairo era o pianista, Cataldo Bove. Foi talvez o único pianista e ao mesmo tempo jornalista da história. Ao mesmo tempo não é figura de linguagem. Cataldo editava o jornal, que ficava na esquina das ruas Barão de Jaguara e General Osório e, quando tinha um tempo, corria até a boate para tocar As time goes by ou outra do gosto do público. Tocava e, quando chegava um telegrama urgente, com matéria a ser publicada na edição do dia, corria para o jornal. Às vezes alguém do jornal ligava, pedindo orientação sobre o que fazer com uma matéria que havia ´estourado´, ou seja, era maior do que o espaço previsto para ela na página. ´Corta o pé´, respondia o jornalista do piano.

Bares coladinhos – No Bar Leblon, na área do Largo do Carmo depois conhecida como Praça do Chope, políticos foram servidos várias vezes por um garçom charmoso, boa conversa, que depois virou líder metalúrgico e vereador. Era Cid Ferreira. Ficava ao lado do Bar do Arlindo, o Ponto Chique: se um estava cheio, era só pular para o outro e vice-versa.

Reação – Vila Belmiro. Santos 10 x Guarani 0. Falta apenas um minuto pro jogo terminar quando Augusto, centroavante bugrino, faz o gol do Guarani. Na cabine o saudoso Mário Mellilo, que transmitia a partida, após narrar o gol, renovou as esperanças: “Começa a reação do Guarani…”

Bem caro – Na Copa de 58 não tinha TV. Garoto, Zaiman acompanhou tudo no Largo do Rosário, onde a PRC-9 instalou um balão, que atraiu todas atenções da cidade. O Biné era dono do Giovanetti, o primeiro, em pleno Largo. Terminado o jogo final da Copa, pela primeira vez o Brasil campeão do mundo, o Biné resolveu pagar para chope para todo mundo. Mas pediu para ninguém tomar até ele fazer um brinde. Tinha umas 100 pessoaas no bar e na calçada. Biné levantou o copo para brindar. Mas o copo escapou e foi ao teto. Todo mundo pensou que era para fazer o mesmo e atirou copos com chope e tudo. Biné tomou na cabeça. Foi o chope mais caro da história.

Templo do futebol – Criança, acompanhando a construção do estádio da Ponte Preta, Zaiman ouviu de alguém que aquele seria um “templo do futebol”. À noite, tomando sopa, perguntou para a mãe: “Mãe, o que é templo?” E Dona Zaíra, rápida: “Templo, meu filho, é uma igreja”. O moleque foi dormir pensando, muito preocupado: “Será que a Ponte vai virar uma Igreja?”

Gazeta Esportiva, de jornal a time de meninos –  Gazeta Esportiva, nome de jornal importantíssimo na história do futebol brasileiro, time amador com história tão quanto na várzea de Campinas. O Zaiman de Brito, jornalista da pesada, foi um dos fundadores, junto com José Perez Pombal. O time nasceu no Colégio Campineiro, do professor Messias Gonçalves Teixeira, depois Colégio Batista. Os dois arrumaram um jogo de camisas que o jornal Gazeta Esportiva estava distribuindo. Um jogo foi para Campinas e outro para o distrito de Sousas. Ficou então Gazeta de Campinas e Gazeta de Sousas. A Ponte Preta cedeu calção, meia, e os dois montaram o time. Um time de meninos, até que Pery Chaib assumiu.

Péssimo jogador, excelente treinador –   Zaiman jogava muito mal, apesar de ter sido “um dos primeiros pontas que buscavam jogo”. Mas ficou anos no Gazeta, junto com José Perez Pombal, Pery Chaib, o Tufi e um quarto-zagueiro não muito bom de bola mas técnico excepcional, Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho do mágico time dos meninos do São Paulo na década de 1980.

Time corta-traves –  O Gazeta era um time de raposas. Não gostava de perder nada. Dia de decisão em Sousas, meio time com gripe, não houve dúvidas. Pela madrugada, agentes anônimos do Gazeta cumpriram com êxito a missão: serrar as traves do campo do time adversário. Jogo adiado, time restabelecido, o Gazeta se tornou campeão.

O dia em que Cilinho conciliou –  Mais que time, o Gazeta era uma irmandade. Do Hélio Ortiz, do Rob da Farmácia, da patota do Largo do Rosário, do Bar Turfe. O Cilinho começou a carreira de treinador no Gazeta. O Pery Chaib era presidente, e o Zé do Pito, vice. Um dia Ciclinho pôs Zé do Pito no banco. Isso porque o Zé do Pito, antes de começar o jogo, estava ajudando o Sérgio Salvucci, que ia narrar o jogo para uma emissora de rádio. Ou seja, na visão de Cilinho, Zé do Pito não estaria devidamente concentrado para a partida.

O Zé do Pito não titubeou. Na segunda-feira, pediu para o Pery Chaib se afastar, e assumiu a presidência. E convocou o Cilinho, com a ordem: ou você me põe para jogar, ou está demitido. O Cilinho teve de conciliar, o que não faria na Ponte Preta, Guarani, São Paulo, Portuguesa, Corinthians ou América de Rio Preto, times que dirigiu, sempre com brilhantismo, assim como havia feito no Gazeta.

Canto do Túnel –   O radialista Sérgio José Salvucci todos dias atravessava o túnel da Vila Industrial (lugar “mal assombrado”, o túnel, segundo alguns poucos), um lugar romântico, de jogos de várzea nos campos do Leônidas, do Cruzeiro, Ipiranga e Canto do Túnel. Era uma homenagem ao túnel que liga a Vila ao Centro, os vilenses ao mundo. Salvucci dizia: “Torço para a Ponte Preta e Canto do Tùnel”. Mais uma marca registrada da Vila Industrial, a várzea das águas, do pó e das chuteiras.

Poeminha de Zaiman – “Eu quero um terraço,/ de preferência com goteira./ Onde chova você/ a noite inteira”.

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