Unicamp “nasceu” no Cambuí
Durante muitos anos, antes da construção do campus no Distrito de Barão Geraldo, a Unicamp funcionou na Santa Casa de Misericórdia de Campinas, no Cambuí, e em outros prédios na região central da cidade. Na Santa Casa funcionava a Faculdade de Ciências Médicas, primeira a ser criada na Universidade Estadual de Campinas.
O movimento pela criação da Unicamp começou com uma série de artigos no “Diário do Povo”, na segunda metade da década de 1940, pedindo a criação de uma Faculdade de Medicina em Campinas. A campanha alcançou enorme repercussão, avançou com o apoio da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas e deslanchou com o suporte do Conselho das Entidades de Campinas, que reunia as principais organizações locais.
O Conselho era liderado pelo presidente da Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), Ruy Rodriguez, um dos nomes mais importantes da história social local e que contribuiria muito para a criação da FEAC. Eduardo de Barros Pimentel foi um dos presidentes do Conselho de Entidades e da comissão criada no órgão pela criação da Faculdade de Medicina, tendo atuado nos momentos decisivos para a conquista da antiga reivindicação campineira.
Curiosamente, uma das pessoas que inicialmente se posicionaram contra a criação da Faculdade de Medicina em Campinas foi Zeferino Vaz, com o argumento de que a cidade era muito próxima da Capital. Ele então defendia a criação da Faculdade em Botucatu, equidistante de Ribeirão Preto, onde já havia sido fundada uma instituição de Medicina.
Mas, depois de idas e vindas, a Faculdade de Medicina de Campinas, com o nome de Faculdade de Ciências Médicas, teve seu funcionamento afinal autorizado em 1963, como primeira unidade da Universidade de Campinas, criada pela Lei Estadual 7.655, de 28 de dezembro de 1962, sancionada pelo governador Carlos Alberto Carvalho Pinto.
Uma Comissão Organizadora, encarregada de instalar a Universidade, foi criada a 11 de setembro de 1965 pelo Conselho Estadual de Educação, sendo composta por Zeferino Vaz (presidente), Paulo Gomes Romeo e o oftalmologista Antônio Augusto de Almeida, que depois daria o nome para uma instituição educacional para adolescentes em situação de conflito, mantida com apoio da FEAC. Almeida foi o primeiro diretor da Faculdade de Medicina, primeira unidade da Unicamp, que teve o fisiologista Cantídio de Moura Campos como primeiro reitor.
A 5 de outubro de 1966 foi lançada a pedra fundamental da Universidade, na gleba de 30 alqueires doada por João Adhemar de Almeida Prado. Esta é a data considerada oficialmente como a de fundação da Unicamp.
A Unicamp funcionou inicialmente em instalações precárias e temporárias, em prédios da Maternidade de Campinas, Santa Casa de Misericórdia e antigo casarão de Bento Quirino, na rua Culto à Ciência. O casarão, onde funcionou desde 1918 a Escola Industrial Bento Quirino, foi o último projeto assinado em Campinas pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo.
A instalação provisória da Faculdade de Ciências Médicas, primeira unidade da nova Universidade, na Maternidade de Campinas, também se deve à intervenção de Eduardo de Barros Pimentel. Como líder da comissão criada no Conselho de Entidades para alimentar a campanha pela Faculdade, Pimentel foi um dia surpreendido pelo governador Carvalho Pinto:
__ Eu não vou te dar uma Faculdade, mas uma Universidade.
Mas logo em seguida o governador apresentou uma condição:
__ A Universidade será criada se você conseguir um local imediato para a instalação da Faculdade de Medicina.
Carvalho Pinto tinha o receio de que, se a Faculdade já não tivesse sido instalada de forma concreta em um espaço adequado em Campinas, o processo poderia sofrer alguma descontinuidade no governo seguinte. Pimentel não teve dúvidas em buscar uma solução, que teve a concordância do governador.
Pimentel havia integrado uma comissão de apoio à construção das novas instalações da Maternidade de Campinas na avenida Orosimbo Maia. Anteriormente, a instituição havia funcionado no prédio que depois abrigaria a estação rodoviária.
Nessa condição, Pimentel apresentou então à diretoria da Maternidade a ideia de instalação provisória da Faculdade de Medicina da Unicamp nos últimos andares do novo prédio, com o argumento:
__ Campinas contribuiu muito com a construção da nova Maternidade. Agora é a vez da Maternidade retribuir, recebendo provisoriamente a Faculdade de Medicina.
E assim foi feito. Por algum tempo a Faculdade de Medicina da nova Universidade Estadual de Campinas, com o nome Faculdade de Ciências Médicas, funcionou na Maternidade, que depois viria a ser uma das primeiras instituições filiadas à Fundação FEAC. A aula inaugural, em 1963, aconteceu já na Maternidade. Logo depois, a partir de 1965, a Faculdade funcionou, e durante bom tempo, na Santa Casa de Misericórdia de Campinas, no Cambuí.
Instalada a Unicamp, sobressaiu o gênio de Zeferino Vaz. Nomeado terceiro reitor da nova Universidade (depois de Moura Campos e Mário Degni), ele se empenhou de corpo e alma para tornar a instituição um modelo científico. Trouxe vários pesquisadores estrangeiros e nomes de peso, como o físico César Lattes, que por pouco não havia recebido o Prêmio Nobel com suas pesquisas sobre partículas sub-atômicas.
Desta forma nascia a Unicamp, com muitos nomes ligados à história da FEAC em sua trajetória. Além dos já citados, um dos primeiros professores da Faculdade de Engenharia, que funcionou provisoriamente no prédio do Colégio Bento Quirino, foi Edmir Bertolaccini, um futuro presidente da Diretoria Executiva da FEAC.
E quem foi um dos responsáveis pela confirmação de Zeferino como o terceiro reitor da nova Universidade? Justamente Eduardo de Barros Pimentel, que indicou o nome para o governador Ademar de Barros e também convenceu Zeferino a aceitar o cargo. Em função de sua posição inicial, contrária à criação da Faculdade de Medicina em Campinas, Zeferino estava reticente em assumir a reitoria. Com sua forte inclinação para o diálogo, sempre com argumentos apresentados com leveza e firmeza ao mesmo tempo, Pimentel teve sucesso em seu gesto e o resto é história. Sob o seu terceiro reitor, a Unicamp confirmou a vocação para o brilho.
Faculdade de Medicina na Santa Casa – A Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp permaneceu na Santa Casa de Campinas até fevereiro de 1986, quando transferiu-se para instalações próprias no campus no Distrito de Barão Geraldo. Foram portanto 23 anos de funcionamento na Santa Casa, no Cambuí. Todas as primeiras gerações de novos médicos, formados pela Unicamp passaram portanto pelas centenárias instalações da Santa Casa.
Foram muitos fatos de destaque no período, como o enfrentamento da epidemia de meningite no início da década de 1970. Na época, foi construído um prédio de três andares para isolamento dos pacientes de meningite. Pelo funcionamento da Faculdade na Santa Casa, muitas repúblicas de estudantes e serviços associados à instituição, como laboratórios, foram instalados no Cambuí.

Publicar comentário